Trabalhar ou servir

 

Cada passo verdadeiro que você dá em direção ao SERVIR, é um salto gigantesco em direção da morte… a morte da sua individualidade, do seu ego, do seu senso de separação… então, abre-se espaço para o amor invadir, e tomar conta de si…

 

A humanidade desconectou-se da sua realidade, que é o amor. Essa é uma afirmação comum nos meios espiritualistas de diversas tradições, mas… o que isso realmente significa? O que é o amor? Como ele se manifesta? Bem, amor é algo que não cabe em nenhuma regra de comportamento. Tudo o que podemos identificar como ações amorosas – por exemplo, o carinho, o sexo, a caridade, a cortesia, a justiça, os nobres ideais, a amizade, são somente reflexo deste algo, que é muito maior. São manifestações de amor… isso, enquanto não viram somente comportamento automatizado, que daí, será apenas comportamento. Ser educado, bondoso, gentil, etc., pode ser somente um comportamento social, aprendido para que os outros sejam bons para conosco, e nós sejamos reconhecidos como pessoas amorosas. Eu sou legal, cara! Mas o amor não é comportamento. O amor, quando acessado, nos impele a sermos corajosos, e daí, não temos nenhuma necessidade de sermos legais para com os outros. Isso não importa. Nossa vida, nosso ego, ser reconhecido ou não fica menor do que a necessidade de servir ao amor. É uma coisa totalmente diferente ter uma atitude educada ou ser impelido pela energia do amor. Porque o amor impele, o amor arrebata, o amor provoca, o amor nos faz perder o senso de realidade, vai contra até nossas próprias ideias e comportamentos. Em amor, você está dominado.

 

Trabalho e servir

 

O amor se manifesta em tudo e em todos. Mas quero falar especificamente do amor manifestado no trabalho. Nós aprendemos profissões. Somos ensinados, desde pequenos, a trabalhar para ganharmos dinheiro e suprir nossas necessidades físicas e emocionais. Mas não somos ensinados a nos doar amorosamente. Porque isso é perigoso. Ao nos doarmos, poderemos ser feridos. A doação poderá não ser reconhecida. Poderá ser até criticada. Pessoas o julgarão, lançarão calúnias. Seus pensamentos e suas emoções serão desafiados. Porém, se você está dominado pela energia do amor, mesmo não sendo confortável algumas críticas e julgamentos, continuará. Porque sua mente sabe que está correto o caminho. E como sabe? Sabe, porque você é abastecido pela doação. Você se sente bem com o que faz, se sente feliz, vibra com o serviço, está em paz consigo… Pode receber dinheiro pelo que faz, sim. E isso está adequado, até porque você não pensa sobre isso, embora não despreze o dinheiro. Quando você atende alguém, está totalmente aberto: olha nos olhos, o peito está alto, confiante, o coração conectado ao coração do outro, a sensibilidade aguçada. Os seus dons fluem naturalmente, pois você sabe que não são seus. Não existe a necessidade de ser bonzinho, de ajudar, de salvar, porque você vê o amor no outro também. É uma conexão amorosa, onde você está numa posição, e o outro em outra posição. Neste momento, você está no papel do servidor, e o outro, de ser servido. Só isso. Em outro momento, isso irá se inverter, e você será servido por outros. É bem simples.

 

Aproximando-se do servir

 

Aproximar-se do servir significa aproximar-se da sua missão. Todos vieram ao mundo com algum papel. Muitos poucos têm consciência disso. Mas falo aos que já percebem isso. Servir não é só ser um missionário, um terapeuta, um espiritualista… Servir é fazer o que você foi preparado para fazer, com o coração. Em prol dos outros. Conectado, jorrando amor por cada ato. Centrado, presente… Cada ato que você faz, é um ritual em honra a Deus, e seria importante ter esta consciência. Limpar um banheiro, fazer um almoço, arrumar um jardim, pintar a parede, lixar a porta, lavar o carro… Quando participamos de retiros de meditação zen, em determinado momento da prática somos convocados a auxiliar na limpeza ou no almoço… tudo em estado presente, movimentos lentos, em silêncio. As mãos de Deus estão sendo usadas para movimentos sagrados. Deus age através de mim, e cada ação que realizo é uma co-criação. Meu corpo, mente, habilidades, estão emprestados, a serviço… A mente irá negar, ou irá querer tomar posse dos frutos da ação… afinal, o ego gosta de se sentir separado e exclusivo. Mas este é o treino. Perceber que não somos nada, nem ninguém… somente um instrumento vivo, no momento presente, a serviço.

Gary Morsh, médico e fundador de uma das maiores agências de auxílio internacional nos Estados Unidos, acredita que o servir é um dom inato à humanidade. “A tendência de ligar-se intimamente a alguém, agindo pelo bem-estar de outros assim como pelo próprio, pode estar profundamente enraizada na natureza humana, formada num passado remoto como aqueles que se ligaram e tornaram-se parte de um grupo para aumentar as chances de sobrevivência”, diz ele, no livro O Poder de Servir aos Outros.

Tem sentido o que ele fala. Se você olhar para as gerações passadas, seus antepassados, com certeza entenderá que somente atos voluntários de colaboração e ajuda mútua permitiram que você chegasse até aqui, vivo, com saúde e todos os dons que possui. Quantas guerras foram ultrapassadas? Quantas imigrações, quantas mortes, quantas perseguições, doenças, miséria? Perceba o quanto a sua linhagem familiar se esforçou para que você vingasse? E isso é o processo natural: a busca da sobrevivência. E se você está lendo estas linhas, é porque deu certo! Logo, servir está em seu sangue. É parte do seu DNA. Mesmo que você se acredite incapaz de auxiliar o outro, está em seu sistema a capacidade, e basta acioná-la com a consciência. Dizer: sim! Eu vou servir! Eu estou pronto, do jeito que sou, com os instrumentos que tenho, aqui e agora!

Madre Teresa de Calcutá tem uma frase que gosto muito: “não podemos fazer grandes coisas, apenas pequenas coisas, com grande amor”. Esta é a base do serviço. Quem gosta de coisas grandiosas, como grandes empresas, fundações, benefícios para a humanidade, é o ego. É besteira divulgada pela imprensa, pela TV, pelos filmes, pelos desenhos: somente o grandioso vale alguma coisa. Mas quem realmente está a serviço, não está pensando em grandiosidade. Não pensa em si. Não pensa em quantidade. O serviço é algo natural, que flui, e assim, o amor é manifestado. Pode ser por uma planta. Por um animal, Por simples empreendimentos. Ama-se em cada gesto, cada palavra, cada olhar. Ou não.

 

Dominando o instrumento para servir

 

Não digo que servir incondicionalmente seja fácil. Pelo contrário, é necessário treino: treino mental, emocional e de atitudes. Porque, simplesmente você, ao servir, deve deixar a sua individualidade de lado. Isso quer dizer: suas ideias de certo e errado, quem deve ser servido ou não, as crenças de limites, de condições, seus julgamentos, tudo isso não serve para nada, se você quer servir verdadeiramente. Esse é um grande golpe para o ego, afinal, ele vive das próprias crenças. Perceba: não são suas crenças de certo e errado que dominam a sua mente, e o fazem achar o mundo bom ou ruim? Pois é… mas com estas crenças, você está impossibilitado de servir incondicionalmente, porque o amor não escolhe para quem, nem quando, nem onde. E eu lhe garanto: no momento em que você colocar os pés para fora da casa para servir, virá ao seu encontro exatamente o tipo de sujeito que mais lhe provocará! Você será convidado a amar alguém que suas crenças não aceitam. As emoções também devem ser dominadas: se você faz algo por dó, ou por piedade, no fundo, é porque tem dó e piedade de si mesmo. Ou talvez, se ache melhor do que as pessoas que busca auxiliar. Todo ser humano é igual. Não existe ninguém que mereça dó. Somente, em determinados momentos, estamos no papel de auxiliar, e em outros, de sermos auxiliados. São somente papéis, nada mais. Se eu sirvo, sou Deus servindo. E aquele que é servido, é Deus sendo servido. E como a última observação a respeito do seu preparo, está a questão do domínio das atitudes. Isso quer dizer: você precisará do seu corpo e da sua energia para agir. Para poder seguir as estratégias que sua mente traçar. Sem estar com o corpo em dia, não conseguirá ir longe. Servir exige, física, emocional, mental e energeticamente. Cuidar amorosamente de si, alimentar-se direito, praticar esportes ou atividades físicas, descansar quando necessário, orar e energizar-se, cultivar bons hábitos, tudo isso auxiliará você neste caminho. Que é um caminho gradual.

 

Então, pronto para o primeiro passo? A primeira e mais importante decisão é: vou servir! A partir daquilo que sei fazer. Neste momento, seu trabalho passará, vagarosamente, a deixar de ser um trabalho somente, e virará servir. Finalizando com uma frase do citado autor Gary Morsh, “não podemos mais esperar que o governo preencha as lacunas. Já vimos o que acontece quando entregamos nas mãos das instituições. Entregar não é a resposta. Nossa presença é a resposta. Quando deixamos que o governo ou as empresas sirvam aos outros, perdemos a oportunidade de encontrar significado e sentido em nossa vida”.

 

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